O relógio marcava 12h37 quando entrou no hospital.
- Senhor, por favor, retire a senha ao lado direito e aguarde para ser atendido.
- Senha? Mas é urgente… Que pronto socorro é esse se o socorro não é pronto?
- Sinto muito senhor, todos têm que aguardar a vez.
Ele retira a senha. Na sala de espera observa uma senhora bem idosa que entra com a filha. “Ih… Essa já já vai” – pensa.
- Senha 251 – grita a recepcionista
251. Ainda faltam 10 pessoas. 9 na verdade, pois a décima é ele.
A televisão mostra a desgraça alheia, a sala de esperas idem. 30 minutos na espera do socorro, quando finalmente o chamam.
- Carteirinha do convênio e documento de identidade com foto.
- Pode ser carteira de motorista?
- Sim senhor.
(…)
- Senhor, é necessário que assine essas três vias.
- O que diz aqui?
- Ai está escrito que o hospital lhe cobrará quaisquer exames ou medicamentos que seu plano de saúde não cobrir.
- E como eu sei o que meu plano de saúde não cobre?
- Senhor, aí é só com o plano de saúde do senhor…
Ele decide que não vale brigar por aquilo agora. Agora ele precisa do socorro, que venha a guerra depois.
- Obrigada senhor, agora é só aguardar na sala ao lado que o médico vai chamar pelo mesmo número.
- Obrigada. Demora muito?
- Cerca de uma hora senhor.
Uma hora. Sessenta minutos. Ele tira um cochilo na sala de espera, quando o chamam para triagem.
- Senhor, coloque esse termômetro abaixo de sua axila direita, nessa posição, por favor. Agora estenda o braço esquerdo para medir a pressão.
- Isso é mesmo necessário? Meu problema não tem nada a ver com isso.
- Sim, senhor. É o procedimento de rotina.
(…)
- temperatura 36,5 oC. Pressão 11 por 7. Agora só aguarde ao lado e o médico já irá chamar.
Mais alguns minutos e, finalmente, o médico chama.
- 261?!
- Sim doutor, sou eu.
- Por favor, entre. (…) Então, senhor Pedro, qual é o seu problema?
- Meu problema?! Doutor, são tantos!
- Mas o que lhe trouxe aqui hoje?
- Ah sim. É que, doutor, acho que meu coração parou.
- Como?
- Meu coração. Parou de funcionar, não sei. Tem alguma coisa errada com ele.
- Senhor Pedro, isso é impossível. Se seu coração não mais pulsasse o senhor estaria morto.
- Pois bem, talvez eu esteja morto então.
O médico, não entendendo nada, começa o exame.
- Respire fundo e solte. (…) Mais uma vez. (….) De novo. (…) Mais uma vez (…). Dói aqui?
- Não.
- E aqui?
- Não.
- Tudo bem, pode se levantar. O senhor tem sentido algum formigamento no braço?
- Não.
- Tem tido náuseas?
- Não.
- Então, senhor Pedro. Tudo leva a crer que não há nada de errado com o senhor.
- Desculpe doutor, mas há sim.
- Então me explique, o que está acontecendo?
- Doutor, já há algum tempo acho que meu coração parou. Parou mesmo. Ele não funciona mais. Quer dizer, fisicamente pode estar tudo bem, mas a função “sentir” dele parece que foi desligada. Eu olho pra coisas que antes me enchiam de felicidade e não sinto absolutamente nada. Olho para outras que antes me faziam chorar e, de novo, nada. Não sinto mais amor ou ódio, pena, compaixão, nada. Absolutamente nada. O mundo para mim, hoje, é incolor, inodoro, insípido. E passo meus dias sabendo da insignificância de todos eles. Virei um cínico. Não sinto mais, absolutamente, nada.
- Entendo. Senhor Pedro, o senhor pode estar com depressão. O senhor já consultou um psicólogo ou psiquiatra?
- Não doutor. Não é depressão não. Eu sei muito bem o que acontece, mas não vejo a cura. Entenda: na minha idade, já vi tanto o bom quanto o mau serem feitos “N” vezes. Eu inclusive já fiz ambos. Já fui do céu ao inferno, já vivi situações arrebatadoras. Já amei, já chorei, já me entreguei por completo para quem não merecia. Já fui atrás da pessoa errada e dispensei a certa. Mas agora, é como se já tivesse aprendido e decorado essa tabuada. Já compreendo as causas e efeitos, até as sei de cor. Nada mais me espanta, nada mais enche meu peito de alegria ou tristeza. Nesse ponto, sinto tudo tão inerte que, de fato, acredito que meu coração tenha parado de funcionar.
- Entendo. Veja, infelizmente não há nada que eu possa fazer pelo senhor. Sugiro que procure uma terapia pois, clinicamente, o senhor está bem.
- Doutor, mas não tem remédio pra isso?
- Que eu conheça não. Mesmo assim, talvez seja uma forma de depressão.
-Não doutor… O senhor não entendeu. Mas tudo bem. Nem isso me deixa bravo, nem isso…
- Sinto muito…
- Sente mesmo doutor? Acho que não. Acho que o senhor sofre da mesma doença que eu. Acho que me compreende perfeitamente mas, simplesmente, não dá a mínima porque, assim como eu, sabe que não há nada a se fazer.
O homem sai pela porta. Três da tarde. Ele finalmente entende qual é a doença, que não é só sua.