All the lonely people, where do they all come from?

Acho trabalho uma coisa engraçada…

Passamos pelo menos 11 horas do dia em função do trabalho (com 1h de almoço e 2hs de transporte, o que é uma média boa pra São Paulo). Com as sonhadas 8hs de sono, são 19hs por dia. Nas outras 5hs podemos fazer alguma coisa por nós. Ou seja, em um dia inteiro, gastamos menos de 20% fazendo alguma coisa que realmente queremos.

Tudo bem, poderia ser pior: no auge da revolução industrial o povo trabalhava 16hs por dia e a expectativa de média era de 26 anos… VINTE E SEIS ANOS!

Mas o que mais me choca são as pessoas que não trabalham pra viver, mas vivem pra trabalhar. Aquelas que gastam todo dinheiro que ganham em carro pra não ter q encarar ônibus, roupa pra ficar mais apresentável, pós graduação pra progredir na carreira… E na hora do cinema (quando tem cinema) não comem pipoca porque é muito caro. Que nas férias (quando tem férias) ficam em casa, ou porque não têm dinheiro pra viajar, ou, o que é pior: porque não têm COM QUEM viajar!

Também é engraçado como algumas pessoas não se importam de gastar essas 5 horas preciosas do dia levando trabalho pra casa. E trágico como outras simplesmente não têm opção.

Essa história que trabalho dignifica o homem é tão medieval que não é possível que ninguém tenha questionado isso de uma forma séria até hoje. Cara, na Grécia o ócio era o máximo! E por causa dele que estudamos Aristóteles até hoje. Mas atualmente ócio é coisa de vagabundo, de quem não sabe o que quer da vida…

Pessoalmente, não posso falar absolutamente nada: trabalho muito mais e durmo muito menos do que aquilo que citei acima. Não me importo muito porque as minhas sagradas 5hs (que na verdade são umas 2hs) são muitíssimo bem aproveitadas. Mas e aqueles que não têm ninguém pra quem voltar pra casa? E aqueles que a única coisa que fazem e sabem fazer nessa vida é trabalhar?

Uma vez conheci uma pessoa que brigou com a única amiga que a aguentava. Sobrou a mãe dessa pessoa, a qual ela tratava pior que um cachorro sarnento. Aí um dia ela enfiou na cabeça que queria viajar pra Europa: fez todos os planos, roteiros, comprou guias, etc, etc… O dinheiro estava guardado porque, não tendo nenhum amigo, ela não gastava com absolutamente nada. Mesmo assim, levou mais de dois anos pra que ela comprasse a passagem e colocasse tudo aquilo em prática. Por que? Isso mesmo. Qual a graça de conhecer a Europa sozinho?

Eis que ela encontrou a solução: foi com uma colega de trabalho. Isso mesmo, colega. Uma pessoa que, inclusive, ela falava mal pelas costas, bem mal. Então elas embarcaram e foram pros lugares (imagino que militarmente), etc. Contudo, na volta elas perderam o vôo, e no dia seguinte tinham que voltar ao trabalho. Não houve a mínima dúvida: acionaram a empresa e no dia seguinte, às 10hs, elas estavam desembarcando. Tomaram um taxi e foram direto para o trabalho: sem banho, com jet leg, cheias de malas…

Depois de um tempo a colega de trabalho que acompanhou a tal pessoa na viagem saiu do emprego e elas nunca mais se falaram.

Por vezes me pergunto se essa pessoa acha que é feliz. Se existe alguma recompensa por ser assim, se no fundo ela não sente uma inveja insana daqueles que têm a habilidade (sim, acho cada vez mais que se trata de um skill específico) de ter trabalho e amigos e usar o primeiro em função do segundo, e não o contrário.

Difícil entender. Mas essa história toda aconteceu há uns 2 anos e, até onde me consta, a tal pessoa continua idêntica.

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