A (não só minha) vida em poesia

Vai Helena, vai ser gauche na vida…

Maio 15, 2008 · Deixe um comentário

Fiquei pensando o que falar sobre o poema abaixo… Toda vez que alguma coisa ruim acontece a impressão que eu tenho é exatamente essa: “quando eu nasci, um anjo torto…”

Além disso: se eu me chamasse Raimundo, processava meus pais por danos morais! Primeiro, obviamente, porque sou mulher… Mas mesmo que não fosse (e desculpem-me os Raimundos desse mundo), mas p… nome feio!

Se eu tivesse escrito essa, parava de escrever porque qualquer coisa que viesse depois seria minha decadência… Ou então guardava e só divulgava quando fosse bem bem velha – aí seria meu ápice…

Comentários (irrelevantes) à parte, segue…

POEMA DAS SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade

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