Título alternativo: “Djavan – gênio ou estúpido?”
O legal de algumas músicas é que elas são tao bem cantadas e têm uma melodia tão legal, que ninguém presta atenção na letra… São vários casos, mas hoje cito um específico: Açaí, do Djavan.
Toda vez que toca, as menininhas ficam balançando a cabeça e fazer aqueeeeeeeela cara de apaixonadas… Suspiros, etc… Os caras não entendem, mas fingem tratar-se de alguma coisa bonita só pra abraçar as menininhas… E todo mundo fica feliz. Só tem um problema: “Açaí” é uma música romântica? Aliás, em outras palavras: o que essa música quer dizer?
Vendo a letra (e sem lembrar da melodia, por favor… Senão é cabeça pro lado, cara de felizinha… já sabem):
Açaí (Djavan)
Solidão de manhã,
Poeira tomando assento
Rajada de vento,
Som de assombração, coração
Sangrando toda palavra sã
A paixão puro afã,
Místico clã de sereia
Castelo de areia,
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si
Açaí, guardiã
Zum de besouro um imã
Branca é a tez da manhã
Bom, primeiro acho melhor fazer um glossário básico (e com isso tenho certeza que 99% das pessoas que ouvem a música não têm idéia do que ela quer dizer):
Glossário:
Afã: muita pressa; afobação, azáfama, sofreguidão, sentimento de aflição; ansiedade, inquietação
Clã: agrupamento familiar comum, a família
Tez: superfície fina de qualquer coisa, epiderme
Açaí: palmeira cespitosa de até 25 m (Euterpe oleracea), nativa da Venezuela, Colômbia, Equador, Guianas e Brasil (AP, AM, PA, MA, ), de estipe anelado e frutos roxo-escuros de polpa comestível, assim como o palmito; açaí-branco, açaí-do-pará, açaizeiro, coqueiro-açaí, guaçaí, iuçara, juçara, palmeira-açaí, palmeira-jiçara, palmiteiro, palmito, piná, piriá, tucaniei, uaçaí. Etimologia: do tupi ïwasa’i ‘fruto que chora, isto é, que solta água.
Figuras de linguagem:
Aliteração (consonância) pela repetição dos sons de “S” na primeira estrofe (solidão, assento, som, assombração, coração, sangrando, sã),
Metáfora: clã de sereia, castelo de areia, ira de tubarão
Sinestesia: coração sangrando toda palavra
Onomatopéia: zum de besouro
Tem algumas outras, mas acho que essas são as mais importantes. Achei relevante fazer esse parênteses das figuras de linguagem porque elas são determinantes – o autor utiliza-se delas pra passar seu sentimento. A parte da aliteração, além de soar bem, tem a função de sugerir um ruído. A poesia simbolista usava muito dessa figura de linguagem para aproximar a poesia da música, o que pode ser o caso. Com relação às metáforas, sabe-se bem que é estilo marcante do Djavan utilizá-las de um jeito nada convencional, assim como alguns versos. Isso marca o estilo do artista. Mas, parênteses à parte, vamos pra interpretação.
Interpretação
As duas primeiras estrofes podem sim ser entendidas com um mínimo de esforço. O glossário acima e a explicação de algumas das figuras de linguagem devem ajudar. Faço aqui a minha interpretação, o que não significa que essa seja a única resposta – é somente o que eu acho disso tudo.
A primeira estrofe sugere um estado de calmaria, de solidão, subitamente modificado. Trata-se de um incômodo, de algo misterioso que de uma hora pra outra faz “sangrar” toda sanidade.
Na segunda estrofe, fica claro que o que rompeu com o status quo foi a paixão, mística como uma família de sereias, fulgás como um castelo de areia, intensa como ira de um tubarão – mas que não deixa de ser uma ilusão, algo que na verdade não existe. A explicação disso está no verso “o sol brilha por si” – a paixão é vista como “puro afã“, ou seja, como uma afobação muito grande mas que não é natural, espontânea. Daí dizer que a paixão é uma ilusão – é um estado de pura afobação, fora do comum, do natural, do ordinário. “O sol brilha por si” quer dizer que as coisas acontecem naturalmente, sem que seja necessária qualquer interferência, qualquer inquietação – na verdade, esse verso é a exata oposição à paixão, conforme descrita na letra.
Agora, o refrão – essa é uma incógnita pra muita muita muuuuuuuita gente. Depois de fazer toda explicação acima pra minha irmã, perguntei a ela o que achava que significava o refrão. A resposta foi “ué, é simples: o refrão é inexplicável, como a paixão”. Apesar de ter achado a explicação genial, acho que dá pra tirar alguma coisa do que foi escrito nessa estrofe.
Bom, Açaí, conforme o glossário acima, é uma árvore bem grande e tem seu nome derivado do Tupi, onde significa “fruto que chora”. Tá, até daria pra fazer um paralelo desse significado, mas acho que seria viagem demais. Também vou ignorar o fato do poder calórico da fruta, já que na época que essa letra foi escrita isso não era tão divulgado, muito menos moda.
Fuçando pela internet (leia-se wikipedia), achei a lenda do açaí, que originou o nome (é bonitinha, então vale à pena postar):
“Conta a lenda que existia uma tribo indígena muito numerosa. Como os alimentos estavam escassos, era difícil conseguir comida para toda a tribo. Então o cacique Itaki tomou uma decisão muito cruel. Resolveu que a partir daquele dia todas as crianças recem-nascidas seriam sacrificadas para evitar o aumento populacional da tribo.
Até que um dia a filha do cacique, chamada IAÇÃ, deu à luz uma menina que também teve de ser sacrificada. IAÇÃ ficou desesperada, chorava todas as noites de saudades. Ficando vários dias enclausurada em sua oca e pediu à Tupã que mostrasse ao seu pai outra maneira de ajudar seu povo, sem o sacrifício das crianças.
Certa noite de lua IAÇÃ ouviu um choro de criança. Aproximou-se da porta de sua oca e viu sua filhinha sorridente, ao pé de uma grande palmeira. Lançou-se em direção à filha, abraçando – a . Porém misteriosamente sua filha desapareceu.
IAÇÃ, inconsolável, chorou muito até morrer. No dia seguinte seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira, porém no rosto trazia ainda um sorriso de felicidade e seus olhos estavam em direção ao alto da palmeira, que se encontrava carregada de frutinhos escuros.
Itaki então mandou que apanhassem os frutos, obtendo um vinho avermelhado que batizou de AÇAÍ, em homenagem a sua filha (IAÇÃ invertido). Alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu a ordem de sacrificar as crianças.”
Daí a idéia de que a (árvore) Açaí é guardiã da vida.
(pra entender melhor, Guardão = pessoa que, por forte afeição, defende aguerridamente algo ou alguém; protetor, conservador, depositário)
A parte do “zum de besouro, um imã” na minha opinião representa algo incômodo, mas que não se pode deixar de reparar, olhar, prestar toda a atenção (acredito que aqui ele faz uma metáfora com a paixão).
“Branca é a tez da manhã”: lembram que ele cita a “manhã” no começo da música como um estado de solidão? Dado isso, acredito que o “branco” representa aquilo que não tem cor, que não foi “pintado”. Nesse caso, que a solidão é um estado de falta de emoção, falta de cor. Por isso branco é aquilo que a envolve (a tez).
Desta forma, trocando em miúdos, a letra pode ser resuminda no seguinte:
A solidão é estado de calmaria e de falta de emoção. A paixão dá cor à vida (açaí, guardiã…), chega rápida, fulminante, mas não deixa de ser uma ilusão. Apesar disso, é ela que dá graça à vida, que incomoda mas que ao mesmo tempo não podemos deixar de prestar total atenção, focar todas nossas energiar naquilo.
É, em suma, um paradoxo: a paixão é de fato uma ilusão, mas sem ela a vida não é nada.
Conclusão: Djavan (em especial, com “Açaí”) = gênio